O movimento da vida flui como as águas de um rio. Nasce pequeno, brotando escondido na terra, ganha corpo e volume, atravessa montanhas, vales e cidades, corre ligeiro, arrasta galhos, bichos e sentimentos, se acalma, guarda memórias e amores sem fim, até desaguar no mar e ser para sempre, infinito oceano de todos nós.
Hoje, guardo no peito a dor da partida, a saudade que lateja pequenina e profunda e me despeço da doçura, do acolhimento e do carinho imenso de vó Alice.
Lembro quando num domingo voltávamos da casa da minha avó quase 2 anos atrás. Felizmente morávamos pertinho, logo ali, na rua de cima. Para ela, já eram quase 100 anos de amor e serviço nessa terra. O dia brilhava bonito num céu azul profundo e na brisa fresca, o tempo parecia andar mais devagar. As crianças iam à frente, brincando com seus próprios passos e com as curiosidades mágicas da infância, os passarinhos, as flores sobre o chão, as pedrinhas que brilhavam. Com meu filho mais novo nos braços, ainda um bebê, observei e de repente percebi que era uma das cenas de beleza da vida, daquelas em que na simplicidade, nos é revelado um segrego. Lembrei de vó e do tempo bom que partilhamos. E por um breve momento, enquanto caminhávamos, vi a morte correndo à nossa frente, brincando alegremente com meus filhos e com as folhas grandes que caídas enfeitavam a rua.
Quantos almoços ainda teremos, vovó, eu e as crianças? Como será andar por aqui novamente sem ter a possibilidade da casa de vovó como destino? Quanto tempo ainda teremos juntos?
Enquanto os pensamentos passavam fluidos pela certeza da brevidade e do valor da vida, a morte seguiu correndo ágil e serena entre nós. De repente, ela parou, se virou em nossa direção e sorriu docemente.
Siga em paz, vó, pela travessia longa e encantada da vida, seja sempre amor nos nossos corações, eterna como o rio que desmancha no mar.
Para Vó Alice

