Da lousa ao algoritmo: professor da FPL, Fernando Zaidan explica como a Inteligência Artificial pode facilitar a rotina dos educadores. E por que isso não significa o fim do mestre

Você já pediu para alguém resumir um texto longo, sugerir atividades para uma turma, dar feedbacks ou corrigir a gramática de um documento? Agora imagine ter um assistente disponível 24 horas por dia, sete dias por semana, capaz de fazer tudo isso em segundos — e muito mais. É basicamente o que a Inteligência Artificial (IA) já está oferecendo hoje. Mas calma: antes de imaginar robôs substituindo professores, vale entender o que essa tecnologia realmente é e o que ela pode — e não pode — fazer.
IA é, de forma simples, a capacidade de máquinas realizarem tarefas que antes exigiam inteligência humana: reconhecer padrões, interpretar linguagem, gerar textos, responder perguntas. Dentro desse universo, a IA Generativa é o ramo que cria conteúdo novo — textos, imagens, planos de aula, avaliações. Ela funciona por meio dos chamados LLMs (Grandes Modelos de Linguagem), que são sistemas treinados em bilhões de textos para compreender e produzir linguagem humana com naturalidade surpreendente. Os mais conhecidos são o ChatGPT (da OpenAI), o Gemini (do Google), o Claude (da Anthropic) e o Copilot (da Microsoft) — cada um com características próprias, mas todos capazes de conversar, explicar, resumir e criar.
A jornada do educador até aqui
Ser professor sempre foi uma das profissões mais exigentes e, paradoxalmente, mais subestimadas. Ao longo de décadas, o educador acumulou funções que foram muito além de ensinar: planejar aulas para turmas heterogêneas, produzir materiais didáticos do zero, corrigir pilhas de provas e redações, preencher diários, atender pais, adaptar conteúdos para alunos com necessidades especiais, acompanhar mudanças curriculares e ainda se manter atualizado em sua área. Tudo isso muitas vezes com infraestrutura precária, turmas superlotadas e salários que não refletem a complexidade da função.
A chegada da internet trouxe algum alívio — acesso a materiais, vídeos educativos, plataformas de comunicação. Mas a sobrecarga administrativa e pedagógica permaneceu. O professor continuou sendo autor, editor, avaliador, psicólogo e assistente social ao mesmo tempo. É nesse contexto que a IA chega não como ameaça, mas como ferramenta de alívio real.
O que a IA já faz pelo professor hoje
A boa notícia é que não é preciso ser especialista em tecnologia para começar. Existem ferramentas acessíveis, muitas gratuitas, que qualquer educador pode usar agora.
Entre as plataformas desenvolvidas especificamente para educação, o Teachy se destaca como referência brasileira: permite gerar planos de aula, atividades, avaliações e apresentações em minutos, com linguagem adaptada ao nível da turma e alinhada à BNCC. O Eduaide.Ai oferece mais de 100 tipos de recursos pedagógicos, desde roteiros de aula até rubricas de avaliação. O MagicSchool AI é amplamente usado nos Estados Unidos por sua capacidade de criar diferenciações curriculares para alunos com necessidades específicas. O Curipod transforma tópicos em aulas interativas com enquetes e discussões em tempo real. E o Brisk Teaching, uma extensão gratuita para o Google Chrome, permite que o professor gere feedbacks personalizados em redações diretamente no Google Docs, poupando horas de correção manual.
Para quem quer começar com ferramentas mais amplas e gratuitas, o ChatGPT (na versão gratuita), o Gemini do Google e o Claude da Anthropic são excelentes pontos de partida. Um professor pode pedir: “Crie cinco questões de interpretação de texto sobre o tema Amazônia para o 7º ano do Ensino Fundamental” — e receber em segundos um material editável, pronto para ser adaptado (claro, tudo mediante curadoria dos professores).
Um passo além são os chamados orquestradores com agentes — sistemas que combinam múltiplas IAs trabalhando juntas para executar tarefas complexas. Plataformas como o Perplexity AI pesquisam e sintetizam informações com fontes citadas, ideais para preparação de aulas. Sem falar de plataformas de orquestração de IAs, como a Tess, Inner e Adapta. Já o NotebookLM do Google permite que o professor carregue seus próprios materiais — apostilas, artigos, livros digitais — e converse com eles, extraindo resumos, questões e mapas conceituais automaticamente. É como ter um assistente de pesquisa que leu tudo que você leu e está pronto para ajudar.
Na prática, um professor de história pode usar o NotebookLM para analisar documentos históricos e gerar perguntas de debate. Um professor de português pode usar o Brisk Teaching para dar feedback individualizado em 30 redações sem passar a noite corrigindo. Um coordenador pedagógico pode usar o Teachy para criar um plano de nivelamento para turmas com defasagem de aprendizagem. A IA não pensa pelo professor — ela executa o trabalho operacional para que o professor pense melhor.
Gosto muito desta direção: o professor é o piloto, já a IA o copiloto.
O que a IA não substitui
Com toda essa capacidade, seria natural perguntar: sobra espaço para o professor? A resposta é sim — e de forma absolutamente insubstituível.
A IA não sabe quem é o João, que perdeu o pai no mês passado e está com dificuldade de concentração. Não percebe que a Maria entendeu o conceito mas precisa de um olhar de encorajamento para se arriscar a responder. Não cria o clima de sala de aula onde um aluno tímido finalmente se sente seguro para errar. Não desenvolve a relação de confiança que faz um estudante buscar o professor nos momentos mais difíceis da vida.
O professor é, acima de tudo, um mediador humano do conhecimento — alguém que conecta conteúdo a contexto, teoria a vida, currículo a significado. Nenhum algoritmo, por mais sofisticado que seja, reproduz a presença, a empatia e o julgamento pedagógico de um educador experiente. Como disse o pesquisador britânico Neil Selwyn, “tecnologia pode entregar informação, mas só humanos entregam educação.”
Então, a IA é um copiloto poderoso. Mas quem pilota — quem decide o destino, lê o terreno e responde pelo voo — continua sendo o professor.
Para explorar as ferramentas mencionadas:
Teachy (teachy.com.br) — Eduaide.Ai (eduaide.ai) — MagicSchool AI (magicschool.ai) — Curipod (curipod.com) — Brisk Teaching (briskteaching.com) — NotebookLM (notebooklm.google.com) — Perplexity AI (perplexity.ai)
Tess.im — innerai.com — adapta.org
