Texto e fotos de Vanderlei Dias relatam a bela encenação da Paixão e Morte de Cristo no Bairro Tetônio Batista de Freitas
O sol da tarde de Sexta-Feira Santa não era apenas um marcador de tempo em Pedro Leopoldo; era o cenário para uma história que, embora milenar, insiste em se renovar. No último dia 3 de abril, a Comunidade Sagrado Coração de Jesus, no bairro Teotônio Batista de Freitas, tornou-se o palco de uma das mais emocionantes demonstrações de fé e cultura da região: a encenação da Paixão e Morte de Cristo.
O que começou como um projeto modesto há 11 anos, por iniciativa do artista e ativista cultural Vanderlei Dias, hoje é um pilar da Semana Santa na Paróquia Santo Antônio. Desde 2015, a apresentação faz parte do cronograma oficial, mas sua essência permanece a mesma: o envolvimento orgânico de quem vive a fé no cotidiano.
Neste ano, a direção dividida entre Vanderlei e Warlem de Oliveira trouxe o olhar de quem conhece o papel principal “na pele” — ambos já interpretaram Jesus em edições passadas (Vanderlei em 2024 e Warlem em 2015 e 2025). Essa experiência se traduziu em um espetáculo que exigiu dois meses de ensaios exaustivos de dezenas de voluntários, entre atores, figurantes e equipes de apoio.
O público que lotou o pátio da comunidade viu o asfalto se transformar em via-sacra. Diego Viana, encarnando o Cristo, percorreu o quarteirão sob o rigor dos soldados romanos, culminando em uma crucificação diante da igreja que silenciou os presentes.
O momento mais reflexivo da celebração uniu o sofrimento bíblico às dores sociais contemporâneas. Alinhado à Campanha da Fraternidade, o Padre Ângelo Márcio trouxe um sermão necessário sobre o tema “Fraternidade e Moradia”.
Ao citar o lema “Ele veio morar entre nós”, o pároco resgatou a memória local. Lembrou que o querido Bairro da Lua foi fruto da última grande política habitacional de Pedro Leopoldo, há quase 40 anos.
“É preciso lembrar que Deus não se coloca acima de todos, mas veio morar no meio de nós”, pontuou o sacerdote, reforçando que a dignidade do teto é um desdobramento direto da fé cristã.
Manter uma estrutura desse porte exige mais que boa vontade; exige parcerias. Nomes como Padre João, Leleco e o apoio de empresas como Mecaldi, Fred Distribuidora e Equipe Master Sound foram fundamentais para que a arte chegasse ao povo sem custos.
A missão, contudo, não termina no “Amém” final. O grupo já planeja o ciclo de 2027, mantendo a característica itinerante da paróquia — a cada ano, uma nova comunidade recebe a cruz. Para Vanderlei Dias, a encenação é um chamado à coerência:
“Se a experiência de uma encenação é capaz de nos causar indignação e comoção, seria hipocrisia celebrar a esperança da ressurreição enquanto, no cotidiano, naturalizamos a morte do outro ou justificamos a violência como solução. Devemos praticar aquilo em que dizemos acreditar. Se queremos anunciar valores de vida, justiça e compaixão, é preciso que nossas atitudes sejam coerentes com o nosso discurso”, aponta Vanderlei.











